domingo, 2 de novembro de 2008

Trechos do "O Anticristo" XXXII (Nietzsche)

Achei fascinante a visão de Nietzsche sobre o cristianismo, ele percebeu a instituição "pobre" que ela é, Jesus concerteza não tem nada haver com está instituição humana, Jesus não veio trazer religião para a humanidade e sim vida! saboreie o texto!




Repito que me oponho a todos os esforços para introduzir o fanatismo na figura do Salvador: a própria palavra imperieux, usada por Renan, sozinha é suficiente para anular o tipo. A "Boa Nova" nos diz simplesmente que não existem mais contradições; o reino de Deus pertence às crianças; a fé anunciada aqui não é mais conquistada por lutas – está ao alcance das mãos, existiu desde o princípio, é um tipo de infantilidade que se refugiou no espiritual. Tal puberdade retardada e incompleta dos organismos é familiar aos fisiologistas como sintoma da degeneração. A fé desse tipo não é furiosa, não denuncia, não se defende: não empunha "espada" – não entende como poderia um dia colocar homem contra homem. Não se manifesta através de milagres, recompensas, promessas ou "escrituras": é, do principio ao fim, seu próprio milagre, sua própria recompensa, sua própria promessa, seu próprio "reino de Deus". Essa fé não se formula – simplesmente vive, e assim guarda-se contra fórmulas. Com certeza, a casualidade do ambiente, da formação educacional dá proeminência aos conceitos de certa espécie: no cristianismo primitivo encontramos apenas noções de caráter judaico-semítico (- a de comer e beber em comunhão pertence a esta categoria - uma idéia que, como tudo que é judaico, foi severamente fustigada pela Igreja). Cuidemo-nos para não ver nisso tudo mais que uma linguagem simbólica, uma semântica, uma oportunidade para falar em parábolas. A teoria de que nenhuma palavra deve ser tomada ao pé da letra era um pressuposto para que este Anti-realista pudesse discursar. Colocado entre hindus teria usado os conceitos de Shanhya, e entre chineses os de Lao Tsé - e em ambos os casos isso não faria qualquer diferença a Ele. Tomando uma pequena liberdade no uso das palavras, alguém poderia de fato chamar Jesus de "espírito livre" - não lhe importa o que está estabelecido: a palavra mata, tudo aquilo que é estabelecido mata. A noção de "vida" como uma experiência, como apenas ele a concebe, a seu ver encontra-se em oposição a todo tipo de palavra, fórmula, lei, crença e dogma. Fala apenas de coisas interiores: "vida", ou "verdade", ou "luz", são suas palavras para o mundo interior... XXXIII Em toda a psicologia dos Evangelhos os conceitos de culpa e punição estão ausentes, e o mesmo vale para o de recompensa. O "pecado", que significa tudo aquilo que distancia o homem de Deus, é abolido - essa é precisamente a "Boa Nova". A felicidade eterna não está meramente prometida, nem vinculada a condições: é concebida como a única realidade - todo o restante não são mais que sinais úteis para falar dela. Os resultados de tal ponto de vista projetam-se em um novo estilo de vida, um estilo de vida especialmente evangélico. Não é a "fé" que o distingue do cristão; a distinção se estabelece através da maneira de agir; ele age diferentemente. Não oferece resistência, nem em palavras, nem em seu coração, àqueles que lhe são opositores. Não vê diferença entre estrangeiros e conterrâneos, judeus e pagãos ("próximo", é claro, significa correligionário, judeu). Não se irrita com ninguém, não despreza ninguém. Não apela às cortes de justiça nem se submete às suas decisões ("não prestar juramento". Nunca, quaisquer sejam as circunstâncias, se divorcia de sua esposa, mesmo que possua provas de sua infidelidade. No fundo, tudo isso é um princípio; tudo surge de um instinto. - A vida do salvador foi simplesmente professar essa prática - e também em sua morte... Não precisava mais de qualquer formula ou ritual em suas relações com Deus - nem sequer da oração. Se compreendo alguma coisa sobre esse grande simbolista, é isto: que considerava apenas realidades subjetivas como reais, como "verdades" - que viu todo o resto, todo o natural, temporal, espacial e histórico apenas como símbolos, como material para parábolas. O conceito de "Filho de Deus" não designa uma pessoa concreta na história, um indivíduo isolado e definido, mas um fato "eterno", um símbolo psicológico desvinculado da noção de tempo. O mesmo é válido, no sentido mais elevado, para o Deus desse típico simbolista, para o "reino de Deus" e para a "filiação divina". Nada poderia ser mais acristão que as cruas noções eclesiásticas de um Deus como pessoa, de um "reino de Deus" vindouro, de um "reino dos céus" no além e de um "filho de Deus" como segunda pessoa da Trindade. Isso tudo – perdoem-me a expressão – é como soco no olho (e que olho!) do Evangelho: um desrespeito aos símbolos elevado a um cinismo histórico e mundial... Todavia é suficientemente óbvio o significado dos símbolos "Pai" e "Filho" - não para todos, é claro -: a palavra "Filho" expressa a entrada em um sentimento de transformação de todas as coisas (beatitude); "Pai" expressa esse próprio sentimento - a sensação da eternidade e perfeição. Envergonho-me de lembrar o que a Igreja fez com esse simbolismo: ela não colocou uma história de Anfitrião no limiar da "fé" cristã? E um dogma da "imaculada conceição" ainda por cima?... - Com isso conseguiu apenas macular a concepção... O "reino dos céus" é um estado de espírito - não algo que virá "além do mundo" ou "após a morte". Toda a idéia de morte natural está ausente nos Evangelhos: a morte não é uma ponte, não é uma passagem; está ausente porque pertence a um mundo bastante diferente, um mundo apenas aparente, apenas útil enquanto símbolo. A "hora da morte" não é uma idéia cristã - "horas", tempo, a vida física e suas crises são inexistentes para o mestre da "Boa Nova"... O "reino de Deus" não é uma coisa pela qual os homens aguardam: não teve um ontem nem terá um amanhã, não virá em um "milênio" - é uma experiência do coração, está em toda parte e não está em parte alguma... XXXVI Nós, espíritos livres - nós somos os primeiros a possuir os pré-requisitos para entender o que, por dezenove séculos, permaneceu incompreendido - temos aquele instinto e paixão pela integridade que declara uma guerra muito mais ferrenha contra a "sagrada mentira" que contra todas as outras mentiras... A humanidade estava indizivelmente distante de nossa benevolente e cautelosa neutralidade, de nossa disciplina de espírito que sozinha torna possível solucionar coisas tão estranhas e sutis: o que os homens sempre buscaram, com descarado egoísmo, foi sua própria vantagem; criaram a Igreja a partir da negação dos Evangelhos... Todos que procurassem por sinais de uma divindade irônica que maneja os cordéis por detrás do grande drama da existência não encontrariam pequena evidência neste estupendo ponto de interrogação chamado cristianismo. A humanidade ajoelha-se exatamente perante a antítese do que era a origem, o significado e a lei dos Evangelhos - santificaram no conceito de "Igreja" justamente o que o "portador da Boa Nova" considerava abaixo si, atrás de si - seria vão procurar por um melhor exemplo de ironia histórico e mundial. XXXVII Nossa época orgulha-se de seu senso histórico: como, então, se permitiu acreditar que a grosseira fábula do fazedor de milagres e Salvador constitui as origens do cristianismo - e que tudo nele de espiritual e simbólico surgiu apenas posteriormente? Muito pelo contrário, toda a história do cristianismo - da morte na cruz em diante - é a história de uma incompreensão progressivamente grosseira de um simbolismo original. Com toda a difusão do cristianismo entre massas mais vastas e incultas, até mesmo incapazes de compreender os princípios dos quais nasceu, surgiu a necessidade de torna-lo mais vulgar e bárbaro - absorveu os ensinamentos e rituais de todos cultos subterrâneos do imperium Romanum e as absurdidades engendradas por todo tipo de raciocínio doentio. Era o destino do cristianismo que sua fé se tornasse tão doentia, baixa e vulgar quanto as necessidades doentias, baixas e vulgares que tinha de administrar. O barbarismo mórbido finalmente ascende ao poder com a Igreja – a Igreja, esta encarnação da hostilidade mortal contra toda a honestidade, toda grandeza de alma, toda disciplina do espírito, toda humanidade espontânea e bondosa. - Valores cristãos - valores nobres: apenas nós, espíritos livres, restabelecemos a maior das antíteses em matéria de valores!... XXXVIII Não posso, neste momento, evitar um suspiro. Há dias em que sou visitado por um sentimento mais negro que a mais negra melancolia - o desprezo pelos homens. Que não haja qualquer dúvida sobre o que desprezo, sobre quem desprezo: é o homem de hoje, do qual desgraçadamente sou contemporâneo. O homem de hoje - seu hálito podre me asfixia!... Em relação ao passado, como todos estudiosos, tenho muita tolerância, ou seja, um generoso autocontrole: com uma melancólica precaução atravesso milênios inteiros de mundo-manicômio, chamem isso de "cristianismo", "fé cristã" ou "Igreja cristã", como desejaram - tomo o cuidado de não responsabilizar a humanidade por sua demência.

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